sobre interrupções,
baseado em fatos fictícios.
Quando eu estudei escrita de roteiro, aprendi um conceito interessante:
“Se você mostra uma arma, ela precisará ser usada.”
Só mais tarde entendi que este conceito vinha da literatura, aparentemente era um princípio do escritor russo Anton Tchecov. O único livro dele que eu li até agora se chama O Duelo, no qual existem algumas armas, e elas de fato são usadas.
Mas na verdade não é um princípio sobre armas. Não exclusivamente. Ele parte da ideia de que, ao se contar uma história, nada deve sobrar. Se, ao escrever um parágrafo, destaca-se um rifle exposto em uma parede, este rifle precisa ter alguma função na trama mais tarde. Se ele não tiver função na trama mais tarde, ele não deveria estar exposto na parede para começo de conversa.
Em um roteiro de filme isto faz ainda mais sentido, porque estamos falando de um meio que é, idealmente, apreciado ininterruptamente do começo ao fim. Ou seja, cada minuto de tela deve servir para algo, do contrário atrapalha o ritmo, cansa o espectador, e vira ruído. Tudo o que é sugerido deve ser retomado. Ou então não se deve sugerir, para não abusar da paciência do público.
O princípio é interessante e com certeza gera histórias bem formadas, enxutas, filmes cuja duração é apenas a necessária, sem barrigas (enrolação, no jargão do audiovisual). Quanto melhor se é em seguir o princípio de Tchecov, mais assertiva é a história contada. Bons autores e diretores têm este conceito internalizado. Toda expectativa deve ter sua recompensa.
Só que… A vida não é assim, é? Eu não sou policial, nem convivo com o crime no meu dia-a-dia e, ainda assim, já vi algumas armas. Ainda bem que estavam todas guardadas ou na mão de pessoas competentes. Até já vi algumas sendo usadas, mas poucas. A maioria delas eu não vi disparando. E sou grato por isso.
A realidade é cheia de promessas não cumpridas. De expectativas criadas e frustradas, de caminhos iniciados e não terminados. A vida é cheia de interrupções.
Como autor, quero confessar que tenho alguns problemas com o Princípio da Arma de Tcheckov. O primeiro eu já falei: e se eu quiser contar uma história justamente marcada por este aspecto tão palatável da existência, a interrupção? Ou se eu quiser falar sobre alguém acumulador, que coleciona armas e não as usa? E se eu quiser exatamente causar esta expectativa no público só para frustrá-la? A vida não é cheia de histórias não terminadas e conclusões mambembes?
O segundo é mais direto: o princípio da arma é ótimo para audiências despreparadas. Mas, em 2026, será que o público que consome histórias em diferentes formatos tem a mesma bagagem que tinha aquele do final do século XIX? Será que se eu chamo a atenção casualmente para, por exemplo, um relicário em cima de uma mesa, o público já não sabe que este relicário será importante? Neste caso, abre-se mão da surpresa? Se, num filme, há um close exagerado em uma das xícaras de chá que um grupo está tomando, não fica óbvio que, ainda que ninguém tenha dito nada, há algo de peculiar com aquele chá? Provavelmente veneno?
Um problema da necessidade de atender as expectativas criadas é que, muitas vezes, a história fica previsível. Se você vê uma arma em um filme, você sabe que ela vai ser usada. Então você já sabe algo sobre o futuro da trama, né? O arco narrativo fica preciso, enxuto, redondo, mas… Menos surpreendente.
Nós da américa latina sabemos bem o que são Histórias interrompidas. História com H maiúsculo, aquela que a gente estuda na escola. Quase todos os países da região, em algum momento, passaram por regimes de exceção. Um eufemismo interessante para ditatura.
Interessante porque explicita a interrupção. Eu não sou um grande conhecedor dos regimes autoritários do continente mas entendo que, em todos eles, existiam governos seguindo em determinadas direções que não eram aceitáveis para interesses de pessoas poderosas (e dos EUA). Então aconteceram os golpes, os regimes democráticos foram interrompidos e substituídos por regimes de exceção. Uma definição, conceitualmente, provisória. Como um intervalo comercial que interrompe um programa de TV.
Tá, mas e os fatos fictícios nisso tudo?
Bom, assim como a segunda guerra gerou e gera material para filmes e séries produzidas principalmente no hemisfério norte, a ditadura militar no Brasil é uma fonte inesgotável para nós. Lembro de, em 2010, assistir Leo e Bia com amigos e ter uma conversa sobre a sensação de que o tema “ditadura militar” estava gasto, repetitivo, talvez até superado. Os anos seguintes mostraram que não. Enquanto existir um grupo de pessoas que pede a volta do regime, a ditadura precisa estar em pauta. Mais: hoje vejo que apenas arranhamos a superfície do assunto.
E um filme que mostra bem tudo isso é O Agente Secreto, de 2025, do Kleber Mendonça Filho.
Para falar sobre o filme, eu preciso de liberdade, então prepare-se para spoilers. Sugiro que, se você não assistiu, interrompa esta leitura e assista antes de continuar.
O filme ambientado no Brasil de 1977 — uma época cheia de pirraça — é marcado por interrupções. Mas antes de me dirigir a elas, quero falar sobre como O Agente Secreto traz uma abordagem que me parece ainda nova sobre a nossa ditadura.
Porque o Marcelo/Armando não é um militante, não é um agitador. Ele apenas não abaixou a cabeça para a pessoa errada. Mas esta pessoa, o antagonista Ghirotti, embora trabalhando para o governo, não é um agente estatal, muito pelo contrário. Fica bem claro que é um entusiasta da iniciativa privada, que inclusive persegue o desafeto de maneira privada, contratando empreendedores (os matadores de aluguel). Armando não está sendo perseguido pelo estado, está sendo perseguido por um empresário.
No Discurso sobre a Servidão Voluntária, o filósofo francês Étienne de La Boétie fala sobre tiranetes:
“Dizem os médicos que, havendo no nosso corpo uma parte afetada, é nela que naturalmente se reúnem os humores malignos; da mesma forma, quando um rei se declara tirano, tudo quanto é mau, a escória do reino (não me refiro aos larápios e outros desorelhados que no conjunto da república não fazem bem ou mal algum), os que são ambiciosos e avarentos, todos se juntam à volta dele para apoiarem-no, para participarem do saque e serem outros tantos tiranetes logo abaixo do tirano.”
Não, eu não tenho bagagem acadêmica para sacar um La Boétie assim da cartola, fico lisonjeado que você ache isso, mas você me superestima. O que eu tenho é o David Mathieson, um amigo, professor de filosofia, que me apresentou este conceito e seu autor. E cai como uma luva para o que é mostrado no filme.
Tanto não esgotamos o assunto da ditadura que o Kleber Mendonça Filho conseguiu encontrar um recorte que eu não me lembro de ter visto antes: as consequências para os conflitos civis, aqueles que não passam pelo governo de militares. Quem assiste filme nacional está acostumado a ver histórias sobre perseguições do regime, prisões que levam ao porão do DOPS, sequestros de embaixadores com o objetivo de libertação de presos políticos. Mas vimos pouco sobre qual tipo de gente civil a ditadura empoderava e o que essas pessoas se sentiam a vontade para fazer.
O filme é fragmentado, interrompido, mas a trama cronológica, que surge do mosaico destes recortes, também inicia com uma interrupção. Ghirotti é um empresário, um industrial, do tipo que diz que seu pai construiu a empresa com muito trabalho duro. Este personagem está em uma posição de poder graças às suas boas conexões com os militares e decide interromper o trabalho que o protagonista fazia como chefe de departamento na universidade do Recife. O fato de que, entre os projetos da universidade, estava um carro elétrico (tendência agora, cinquenta anos depois) é a cereja do bolo.
Vamos entendendo que esta interrupção levou a tantas outras: a esposa do Armando morre (aparentemente por questões de saúde mas, como muito do filme, não fica tão claro), ele precisa fugir e interrompe a criação do filho, Fernando. Eventualmente volta ao Recife como Marcelo, interrompendo sua identidade anterior, e vai morar em um prédio cheio de outras pessoas que também viviam períodos de exceção em suas histórias pessoais.
No emprego que os aliados arrumam para o protagonista, ele fica sabendo do caso de uma patroa que mandou a empregada sair para fazer alguma tarefa e negligenciou a filhinha de dois anos da funcionária, que acaba atropelada. Marcelo observa como se “inventa” uma delegacia só para que a tal patroa, uma mulher de bem, pudesse depor sem ser incomodada. Afinal, ela estava pessoalmente devastada em ser acusada de assassina.
Vemos também como os policiais se sentem a vontade para matar a torto e a direito, a tal ponto que parecem contar os cadáveres como pontos de um jogo. Algo desses cadáveres acaba voltando na barriga de um tubarão, uma perna, a tal perna cabeluda, uma lenda urbana real da cidade. E um corpo interrompido.
Depois de um bom tempo de filme, a continuidade é, também, interrompida. Descobrimos que tudo o que estávamos assistindo sobre 1977 era uma memória reconstruída por fitas cassete de depoimentos da época, sendo organizados por uma universidade. A partir daí, começamos a entender que o nosso esforço como espectadores, de ordenar os fragmentos, é o mesmo esforço da personagem universitária, que tem apenas alguns relatos sobre o que acontecia.
Eu acho O Agente Secreto um filmão, completo, impecável e com a rara qualidade de trazer um frescor, algo novo para a linguagem cinematográfica. Vem conquistando prêmios a rodo e espelha a trajetória de outro filme nacional recente, também uma obra prima.
Um ano depois da bem sucedida corrida ao Oscar, sobra pouco o que comentar sobre o filme do Walter Salles. Ainda mais da parte deste que vos escreve, já que eu até lancei uma edição específica sobre Ainda Estou Aqui.
Em comparação ao representante deste ano, o do ano passado é um filme muito mais convencional. Tem a narrativa completamente linear, apesar dos saltos temporais. Aborda a ditadura e suas consequências com competência, mas sem grandes novidades. Se passa no Rio de Janeiro, cidade mais vista em filmes que Recife, e fala diretamente sobre o governo autoritário e seus abusos. Tangencia a resistência política “oficial” da época. Faz tudo lindamente, com perfeição, e talvez seu diferencial esteja justamente na competência com que concilia esses elementos.
Mas também é sobre interrupções.
Acho que já coloquei em pé um argumento que leva a concluir que qualquer filme sobre a ditadura é um filme sobre interrupções. Mas este é um filme é todo construído em volta de uma grande interrupção, em um âmbito mais pessoal. Rubens Paiva é levado para depor, sua família fica esperando, e ele não retorna.
A própria família Paiva é interrompida. Com a ausência do chefe (posição esperada de um pai nos anos setenta), todos precisam se reorganizar. A vida naquela casa nunca mais volta, assim como Rubens. A mãe, serenamente, ocupa o espaço vazio, fazendo malabarismos para manter as saúdes física, mental, e financeira de todos. Um dos posteres do filme é a própria Eunice Paiva (Fernanda Torres) na sorveteria que frequentava com Rubens, olhando os outros pais nas outras mesas. Sua família estava amputada, como se tivesse perdido uma perna.
Tenho o hábito, talvez vira-lata, de procurar resenhas gringas sobre nossos sucessos cinematográficos. Para além da injeção de autoestima de ver pessoas do resto do mundo embasbacados com a gente, gosto da perspectiva de que, para essa gente, é só mais um filme. Para um brasileiro é impossível assistir a um filme sobre a ditadura sem uma bagagem histórica. Até os mais ignorantes de nós sabem que o regime existiu e deixou marcas na sociedade. Já o estadunidense médio não faz ideia do que aconteceu e acontece no resto do seu continente. E isto faz com que a análise seja estritamente sobre cinema.
Este desconhecimento completo sobre a história do Brasil fez com que muitos espectadores esperassem que Rubens Paiva voltasse no fim do filme. Ou que ao menos seu corpo fosse encontrado, que a família pudesse ter algum tipo de encerramento para a questão. Nada disso acontece, a história havia sido, de fato, interrompida. A única conclusão possível é mambembe, insatisfatória, um certificado de óbito emitido mais de vinte anos depois do sequestro do ex-deputado.
Outro comentário recorrente nas resenhas gringas é sobre como as emoções no filme são contidas. Como Fernanda Torres comunica tanto com tão pouco. Apesar de ser um filme com uma estrutura convencional, muitos espectadores estrangeiros apontaram que é inovador em “não criar expectativas”. A cena que melhor ilustra isso é exatamente a do sequestro de Rubens Paiva: não há música triste, Eunice está aflita, confusa, mas Rubens sorri antes de sair, para confortá-la. Ele entra no carro e sai normalmente, sem câmera lenta na despedida.
E nunca mais o vemos.
A aparente falta de drama subverte as expectativas. Leva o espectador desavisado a entender que está tudo bem, que nada de mais grave deve acontecer. Afinal, o público está acostumado a ser provocado primeiro. Uma música melancólica daria peso à cena da despedida. Ainda que a audiência não soubesse o destino de Rubens, entenderia que tratava-se de algo com peso na história. Mas não é assim que acontece.
Interrupções não mandam sinais. A arma é usada sem que tenha sido mostrada.
E no caso d’O Agente Secreto, além das armas usadas sem aviso, tantas outras são mostradas e não usadas. Eu acreditei que o Armando/Marcelo escaparia. Eu quase senti o passaporte falso na mão dele, imaginei-o buscando o filho, criando uma vida no exterior. Mas a história é bruscamente interrompida. A própria mulher da universidade que está organizando as memórias sente isso. Ela também precisa de uma conclusão. E a única possível é, novamente, mambembe.
Nas resenhas gringas algumas percepções são consenso: a atuação (também minimalista) impressionante de Wagner Moura, o elenco inspirado, e principalmente a ideia de que é um filme para ser digerido ao longo de dias. Eu mesmo saí do cinema desnorteado, convicto de que fui entretido por quase três horas, mas incerto sobre o que tirar da experiência. Foi nas horas e nos dias seguintes que o filme cresceu em mim. Ele voltava o tempo todo, meus pensamentos não conseguiam largá-lo.
Suspeito que seja porque ele, deliberadamente, deixa pontas soltas.
E não é isso que é a nossa história? Um amontoado de pontas soltas? Uma sequência de armas expostas que nunca serão disparadas? E tantos outros tiros que nos atingem sem aviso?










Eu vejo com desconfiança as técnicas de escritas que pregam o "deve fazer", "deve seguir" e similares, que geralmente vêm assinadas por uma figura de renome, que é pra garantir a autoridade.
Obrigado por compartilhar sua reflexão. Abraço!
Adorei o texto mas senti falta de