sobre o diabo,
baseado em fatos fictícios
As primeiras séries de TV que eu acompanhei na vida foram japonesas, aquelas de super-heróis. Changeman, Jaspion, e uma favorita em particular que se chamava Cyber Cop. Eu gostava da pegada tecnológica, futurista. Os Cyber Cop (sem plural mesmo) eram quatro: Mercúrio, Marte, Júpiter e Saturno. E havia um outro cybercop malvado que, como é comum em contos orientais, depois ficava bonzinho e se juntava ao grupo. O nome dele era Lúcifer.
Lembro de achar que havia algo de estranho no grupo. Mercúrio, Marte, Jupiter e Saturno são planetas, mas “quem diabos é Lúcifer”? E só então entendi que Lúcifer é, de fato, o Diabo.
Eu fiquei fascinado. Até hoje eu acho Lúcifer um nome lindo! Chamaria meu filho de Lúcifer… Não fosse, claro, toda a carga que isso traria. Como pode estar relacionado a algo tão assustador, aquela figura vermelha, de cavanhaque, orelha pontuda, chifre e sorriso maléfico? Desde então a mitologia sobre esta figura me fascina. Acho uma das histórias de origem mais geniais já criadas para um personagem.
É de uma sofisticação absurda a ideia de que o grande Rival de Deus tenha um nome que signifique “portador da luz”. E tudo o que esta associação traz, o fato de que ele era um anjo, o favorito de Deus, o mais bonito, o primordial, que fica com ciúmes na criação do homem porque, em tese, o homem tem livre arbítrio enquanto ele não. Que ele se revolta contra o Criador, é expulso do céu, cai, e vai empreender por conta própria.
E toda a história da guerra permanente, do mal contra o bem, com o Anjo Caído tentando as almas humanas, corrompendo-as, usando o livre arbítrio que Deus concedeu ao homem para deixar o homem ainda mais distante de seu Criador. Se Lúcifer existisse mesmo, ele provavelmente seria capa da revista Time ou da Forbes como um CEO genial.
Os contos bíblicos me interessam muito porque mitologia me interessa muito. Tenho um ranço da legião de fãs do livro “sagrado”, que tomam suas passagens como literais e não metafóricas, baseadas em fatos fictícios. Mas se eu encarar a bíblia como um compilado de mitologias de um povo, acho tudo muito fascinante. Tanto quanto um livro de mitologia nórdica, grega, africana, indiana, indígena…
Só que esta história de origem do diabo é fanfic. Não é cânone, não está na bíblia. É uma extrapolação de certas passagens, textos e contos antigos. A própria imagem do Demônio com chifres e pés de bode foi construída usando elementos de culturas pagãs, muitas vezes politeístas.
Mas, canônica ou não, a figura do Cramulhão é extremamente popular. O Diabo está presente em inúmeros fatos fictícios, antigos, novos, e futuros. Pensar sobre o Capeta é pensar sobre suas mais variadas aparições nas mais variadas histórias. Ele tem tantas delas quanto nomes, e eu nunca daria conta de elencar todas neste texto. Nem vocês dariam conta de ler algo tão chato. Mas penso nele com frequência. E minha versão do Tinhoso é baseada em alguns dos meus fatos fictícios preferidos.
Li recentemente em posts do instagram (e confirmei nesta fonte para publicar aqui) que Satanás, um nome bíblico atribuído ao Coisa Ruim, traduziria-se do hebraico para algo como acusador, ou adversário. Não era necessariamente sobre ser mau, mas sobre estar do outro lado em relação a Deus, alguém para oferecer um contraponto. Um advogado de acusação.
Para mim, não tem como falar sobre essa faceta jurídica do Anjo das Trevas sem lembrar do Auto da Compadecida e da cena memorável em que o João Grilo, recém morto, é julgado por Jesus, com o Satã exatamente na posição de acusador. O texto, do Ariano Suassuna, combina uma série de contos populares da literatura de cordel com a estrutura do teatro medieval, em especial o Auto da Barca do Inferno, de Gil Vicente.
Nesses “autos” antigos, é comum a aparição de arquétipos religiosos e já se desenha o padrão do Danado nessa posição, de alguém que vai argumentar contra a entrada do homem pecador no paraíso. Este Diabo, me parece, é um tanto passivo comparado com sua versão contemporânea mais comum. Ele não induziria as pessoas às más ações, apenas ficaria com o trabalho de contabilizá-las e apresentá-las de maneira a convencer o juiz — Jesus no caso do Auto da Compadecida — de que aquela alma não merece o reino dos céus.
A conexão entre o Maldito e sistemas jurídicos também aparece em Advogado do Diabo, de 1997. O filme parece ter sido construído em cima da premissa de tornar literal uma metáfora. O “advogado do diabo” costuma ser a pessoa que, em uma discussão, traz o contraponto. Aquela que diante de um consenso pacífico fala o que ninguém quer ouvir. Já o filme parece ter zero disposição para sutilezas. Keanu Reeves faz um advogado que é contratado pelo Al Pacino, e eventualmente descobre que seu cliente é, literalmente, o próprio Satanás.
Bom filme, apesar da premissa manjada. E ainda que remonte à ideia de advogado de acusação, o Capiroto do filme dialoga melhor com a ideia mais recente que se faz dele. A versão corrente do Demônio é ardilosa. Ele seduz os humanos com promessas de prazeres imediatos e fáceis, efetivamente corrompendo a alma para que ela vá direto ao inferno e some pontos em um eterno campeonato divino.
Eu não vou me arriscar a dizer exatamente quando o Príncipe das Trevas resolveu deixar de ser um mero observador e passou a colocar a mão na massa. Certamente tem algo a ver com a idade média. Mas quando penso neste Capeta corruptor, existe uma história seminal que sempre vem à minha mente: aquela do pacto com o Diabo.
É uma estrutura recorrente: um ser humano troca sua alma por uma solução mágica para algo que quer ou precisa. Às vezes é a pessoa que conjura o Pai do Mal e oferece a barganha, às vezes é o Cabrunco que convence o humano. Às vezes o pedido se torna uma pegadinha, sequer agradando o vivente, em outras o Cão é alguém de palavra e arrecada a alma apenas ao fim da vida. Ao longo dos tempos, este tipo de barganha fictícia — fictícia até onde sabemos, claro — ganhou um nome: pacto fáustico. Isto porque a história mais famosa deste tipo de pacto é a do Doutor Fausto.
Fausto é um célebre texto do célebre Johann Wolfgang von Goethe, autor alemão do fim do século XVIII e início do XIX. Há pouco tempo tomei coragem e me meti a ler este livro. Como um tanto da produção literária de antes dos romances, achei insuportável. Atravessei a história do médico brilhante e cheio de sucesso, que é tentado por um Demônio a ter ainda mais, com as pálpebras pesadas, pouca paciência para o lirismo e ansiedade pelo andamento da trama. E certo que um clássico tão importante merecia um leitor melhor que eu.
O mais interessante foi depois, quando descobri que Goethe não inventou o personagem, mas se inspirou em uma lenda. O tal doutor Fausto existiu de verdade, era um médico reverenciado no fim da idade média. E a fofoca de que ele fez um pacto com o Canhoto precede em muitos anos o texto do autor alemão. E também procede. Outro livro famoso, que estou criando coragem para encarar, é o Dr. Fausto do — também alemão — Thomas Mann, escrito séculos depois do Fausto de seu conterrâneo.
Ou seja, a lenda do pacto com o Diabo é muito maior do que os textos literários.
Na verdade, toda vez que penso no pacto fáustico, lembro do filme Endiabrado, um dos últimos do auge de Brendan Frasier e Elizabeth Hurley. A versão do Demônio apresentada neste caso é uma mulher maravilhosa, sedutora, que oferece ao rapaz apaixonado a possibilidade de atrair a mulher amada em troca da alma dele. Na época parecia empoderador que o Demônio pudesse ser mulher, hoje me parece mais uma associação do gênero com o mal.
O interessante deste filme é que o sujeito não tem apenas uma única chance. Ele não faz um pacto e simplesmente vive com as consequências. O filme mostra o acordo sendo refeito, os detalhes do pedido sendo refinados, sempre gerando armadilhas, nunca levando ao objetivo de verdade. Em uma realidade o homem é um jogador de basquete enorme, mas burro. Em outra, parece que tem tudo o que quer, mas seu pinto é pequeno. Há uma em que ele é inteligente, bem dotado, elegante… Mas é gay, o que iria contra o propósito inicial.
O Demônio feminino parece ser um pouco mais compassivo, permitindo um perído de trial grátis antes da compra. Uma versão demo, talvez. Ao fim, a impressão é que o Cornudo não queria a alma dele, apenas ensinar uma lição. Talvez fosse difícil colocar a Elizabeth Hurley na posição de vilã completa. Ou talvez o Diabo fosse só um contraponto pedagógico a Deus.
Pessoas que fazem o pacto fáustico são, frequentemente, herois. Ou ao menos anti-herois. Nos quadrinhos, o Motoqueiro Fantasma da Marvel é um artista performático que recorre ao Demônio para curar o câncer do pai e, no processo, vende a alma. Spawn, da Image (um dos poucos grandes super-heróis que não é nem da Marvel nem da DC) é um assassino a serviço do governo dos EUA que morre e faz um trato com o Capeta para voltar e poder ver a esposa e a filha.
Esta parece ser a fórmula: se a motivação do pacto for altruísta, o sujeito que vende a alma pode ser um herói.
Lembro do medo que eu sentia quando, aos sete anos, via o Fagundes conversando com seu pequeno Cramulhão engarrafado em Renascer. Só na versão mais recente fui entender que ele o tinha aprisionado para manter seu corpo fechado, não morrer de morte matada. Me fascinava esta barganha, principalmente pela possibilidade de ganhar do Diabo. E também porque o homem que a fizera não era exatamente um vilão.
A julgar por Auto da Compadecida e Renascer, o Capeta parece ser uma figura presente no imaginário popular brasileiro, e de um jeito muito nosso. Aqui, ele parece menos poderoso. Nas representações de outros lugares, a barganha com o Demônio se assemelha a apostar contra a casa em um cassino — onde a casa sempre ganha. No Brasil, talvez a metáfora seja outra, como se o Coisa Ruim fosse um jogador de poker. Um dos bons, mas derrotável, se o oponente tiver astúcia o suficiente. Combina muito com a visão elástica do conceito de regra que a nossa cultura tem, o famoso jeitinho brasileiro.
Recentemente tomei coragem e finalmente li Grande Sertão Veredas. Coragem porque preciso confessar que Guimarães Rosa sempre me intimidou. O seu jeito de escrever, todo calcado em regionalismos e neologismos me parecia intransponível. Mas resolvi que era hora de transpor, e só fui. Ainda bem.
No romance, a hipótese do Diabo como uma figura muito presente no imaginário da cultura popular brasileira parece se confirmar. O protagonista Riobaldo é atravessado por duas grande dúvidas. Primeiro, ele quer saber se o Diabo realmente existe. Segundo, se ele existir, não seria o caso realizar o tal pacto?
O personagem passa boa parte do tempo conjecturando sobre o Tisnado. E, ao menos para mim, a impressão que eu tinha era que não era de um lugar de medo, mas de curiosidade. Quase como se ele quisesse que o Satanás existisse para que pudessem firmar um pacto. Eventualmente — SPOILER — Riobaldo resolve agir. Descobre como fazer um ritual para conjurar o Coxo e o executa. Oferece a alma em troca de força e coragem para exercer sua vingança. Mas o Azarape não aparece.
Só que o protagonista continua meio sem certezas. Afinal, não é exatamente claro como essas coisas deveriam funcionar. O Temba tinha que vir pessoalmente? Vermelho, com barbicha e chifres? O Mafarro precisaria efetivamente falar com o solicitante? Ou apenas o pedido e o acordo unilaterais bastariam, como em uma reza para Deus? Riobaldo sai do ritual e do pacto sem conseguir responder se o O-Que-Nunca-Se-Ri existe e se o acordo estava de fato firmado.
O que é inquestionável é que o herói da história consegue o que quer. E paga um preço alto também. Riobaldo termina concluindo que o Diabo existe, mas está na gente, é nossa própria maldade.
Eu sou, como não canso de falar, baseado em fatos fictícios. E a ficção do pacto fáustico é das que mais moldaram minha percepção de mundo. Penso nisso pelo menos uma vez por semana. Porque frequentemente sinto que fiz um pacto com o Sujo.
Na verdade acho que a maior parte de nós fizemos.
A sensação é recorrente: eu aceitei um acordo sem avaliar plenamente as consequências. A sacanagem do pacto fáustico é que as partes não estão em posição de simetria. Lúcifer pertence à eternidade, sabe como ela é e como funciona. O vivente não. Ele pode achar que entende o que está lendo, mas não tem a real dimensão do significado de “vender a alma”. Não é incomum eu me ver diante de um contrato, do qual eu de fato li as letras miúdas, e de fato constatei que pareciam abusivas, e ainda assim o assino. Porque preciso. E deixo qualquer problema para o Micael do Futuro lidar.
Não estamos frequentemente vendendo nosso tempo? Até algumas de nossas convicções? Quantos de nós trabalhamos com algo que não acreditamos, ou muitas vezes francamente desprezamos, porque precisamos pagar as contas? Quantos de nós já nos colocamos em situações que nos ferem e nos marcam, apenas por uma vantagem?
Ou por mera sobrevivência?
O Pacto Fáustico é uma barganha. Uma troca. Um intercâmbio entre duas mercadorias: o desejo — ou muitas vezes necessidade — e a alma. E, enquanto sociedade, nos organizamos em um sistema marcado por barganhas, por trocas, e, portanto, por transformar tudo em mercadoria.
E se o dinheiro for uma manifestação física do pacto fáustico? Porque é genérico, um contrato com letras miúdas ilegíveis, e não tem valor intrínseco. Mas é visto como algo valioso justamente porque criamos uma cultura na qual tudo pode ser trocado por dinheiro. E muitas vezes, quando somos pagos, sabemos o que estamos ganhando, mas não sabemos exatamente o que estamos entregando.
Assim, este pacto parece estar por toda parte. Não (apenas) como ameaça moral, mas muitas vezes como a única opção de se manter vivo. Só que eventualmente o preço aparece, e a alma é cobrada. Quando eu trabalho aos fins de semana e nos feriados, ao invés de passar tempo com meus entes queridos, quando o impacto disso me deixa tão cansado que, ainda que possa estar com eles eu queira dormir, sinto que é porque um pouco de mim ficou realmente para trás.
Na verdade, sinto fissuras na alma toda vez que faço algo sem convicção, que vivo uma violência — tanto como vítima quanto como perpetrador — visando um fim. Que o diabo exista, ou não, de fato é irrelevante. Eu estou entregando a minha alma a alguma coisa ruim.
Ou seja, Riobaldo estava certo.












Identidade total com esse texto e pensamento! 👏👏👏
Nossa, muito bom! Completo, profundo, bem-humorado. Eu costumo refletir sobre essas questões com peso demais. Como ex-evangélico, vivi a existência do diabo diariamente, na chamada "guerra espiritual". Pensar no demônio como só mais uma faceta de nossa psique foi libertador para mim!
Abraço!