sobre a morte,
baseado em fatos fictícios
A gatinha da minha filha morreu recentemente. Ela tinha uns doze anos (foi resgatada, não sabemos ao certo quando nasceu) e era um doce de gata. Eu era a caricatura do pai que fala que não gosta do bicho e, quando ninguém está olhando, o agarra cheio de iti malia. Estou sentindo muita falta dela, muito mais do que eu imaginava que sentiria.
Minha avó também morreu há poucos meses, como comentei no último post. Para mim, foi uma morte menos dolorida que a da gata. Entenda, eu amo — ainda amo — minha avó. Óbvio que sua presença e impacto na minha vida são muito maiores. Mas ela tinha cento e dois anos, não era como se não estivéssemos esperando e, dentro do possível, nos preparando para esta morte. Há pelo menos dez anos.
Já a gata, eu sempre imaginei meu filho crescendo junto com ela, vendo ela bem velhinha, rabugenta, sendo agarrada pelo meninão que ele se tornará nos próximos anos. Foi uma interrupção. O luto não é só pela gata, pela ausência dela perambulando pela casa à noite, pela festinha que ela fazia quando eu chegava, pela presença infalível sempre que um de nós estava meio borocoxô. O luto é por tudo o que não aconteceu, por toda a fanfic escrita na minha cabeça que nunca se materializará. Este luto não existe no caso da minha avó.
Talvez seja sinal da idade, mas a morte tem aparecido para mim como nunca antes. É um dos fundamentos da existência, ser humano é saber da morte, mas eu me considero uma pessoa de sorte por ter podido passar maior parte da vida sem lidar com ela diretamente. Perdi a minha bisavó aos quatro anos, era uma pessoa muito querida, mas não dá para ter dimensão de perda com esta idade. Depois, por mais de vinte anos, nunca mais perdi alguém próximo. Desconfio que nunca tenha pisado em velório ou enterro até uns vinte e cinco. Se fui, não lembro.
Só que por alguma coincidência misteriosa, no último ano estive em mais de sete cerimônias fúnebres (contando o brinde à gata que fizemos com amigos). Vi mortes em idades diferentes, dos cento e dois anos em uma ponta — e foram duas nesta idade — aos seis na outra. Foi um ano difícil.
Eu não sou religioso. Mas tenho meus misticismos à la carte. Meio que acredito em signo, meio que acredito em destino, meio que acredito em vida após a morte. Entendo que faz parte da experiência humana atribuir significado aos eventos, transformar as experiências em histórias, que contamos tanto aos outros quanto a nós mesmos. E a vida tem me feito pensar na morte.
Como sempre, quando sou colocado diante de questões maiores do que eu, recorro aos fatos fictícios. Acho que a primeira vez que eu pensei, de fato, sobre a morte, não foi com a morte da minha avó, foi assistindo James Bond. Não sei qual, provavelmente Goldeneye. Eventualmente caiu a ficha:
“ele está matando essas pessoas”.
Eu sei que é uma obviedade mas, ao mesmo tempo, as mortes em filmes de ação são por atacado. Acontecem e nem sentimos. E eu me lembro de pensar que havia algo de estranho ali, em que eu ficasse entusiasmado com uma vida que deixava de existir.
Claro, tudo se justificava, o capanga era malvado. Mas, ainda assim, eram mortes sem dramas. Os malvados não estão, sempre, imunes a dramas. O vilão principal fazia o maior dos dramas para morrer. Então, fui entendendo que meu desconforto não passava por constatar que eram malvados, o problema é que eram descartáveis.
A compreensão veio com a sátira do 007, o Austin Powers, no filme que deu voz às vozes da minha cabeça. A gag recorrente é a da família do capanga sendo comunicada de sua morte. As esposas e filhos e filhas, invariavelmente vivendo no subúrbio dos EUA, desolados, descobrindo que papai nunca mais voltará, pois fora morto em serviço. É uma caricatura, claro, mas não deixa de ser um lembrete importante: todas as pessoas têm histórias.
A frase é do filme Os Imperdoáveis, de 1992. O western conta a história de pistoleiros contratados para sair da aposentadoria e fazer um último serviço. Uma premissa batida mas que, na mão do Clint Eastwood, vira ouro (ter o Morgan Freeman como parceiro de cena também não atrapalha). É o personagem do Clint quem diz isso a um rapaz, o único jovem dos três atiradores contratados, que estava ansioso pela sua primeira morte. Claro que, depois que acontece, não era exatamente como ele tinha imaginado. Eu vi esse filme uma única vez, mas essa fala nunca mais saiu de mim.
Como alguém que vive pensando no futuro, seja imaginando utopias, lendo ficção científica, ou seja numa crise de ansiedade, a ideia sobre a morte que mais mexe comigo é a ideia de que o pior dela é o fim do futuro. Ao menos para quem morreu. São os planos cancelados, todas as milhares de possibilidades que aquela vida tinha e subitamente não tem mais. Por isso, talvez, quanto mais futuro a pessoa parecia ter, mais dolorosa é sua morte.
Já tive amigos que viajaram para muito longe e eu nunca mais vi. Criamos distância, construímos vidas absurdamente distintas e provavelmente nunca mais trocaremos uma palavra sequer. Outros que eu quero mesmo distância, que não vejo sentido na relação e aprecio que estejamos longe. Ainda assim, eu ficaria desolado se soubesse que morreram. Por que? É uma pergunta que me faço desde sempre. Por que, se eu não vou ver nunca mais a pessoa, a morte dela é tão pior do que a distância em vida? É claro que existe um aspecto humanitário (todas as mortes importam), mas a questão, pra mim, é muito pessoal mesmo. Porque ME afeta tanto?
A resposta óbvia é exatamente que a morte do ser é também — e talvez principalmente — a morte da possibilidade. Por mais que eu e essa pessoa hipotética estejamos longe, e não haja nenhum sinal de que voltaremos a ter algum contato, há a possibilidade. E a possibilidade é tão importante que a perda dela dói, e dói muito.
Vale também para desconhecidos que admiramos. Eu nunca superei, por exemplo, a morte do John Lennon. E olha que aconteceu quatro anos antes de eu nascer. Toda vez que eu vejo algum filme ou série que mostra ele perto dos quarenta anos, perto do atentado que tirou sua vida, todo dia oito de dezembro, me vem uma tristeza absurda. Os Beatles poderiam ter se reunido em algum ponto dos anos oitenta ou noventa. Nem que fosse para um último álbum, um último show de despedida. A tal da possibilidade, que morre junto com a pessoa.
Em Yesterday, John Lennon não morreu. Mas também, os Beatles não existiram. O cantor, nesta realidade, é um senhor meio hippie, vivendo em uma casa linda perto de uma praia bem britânica, nos fim da década de 2010. Meu coração apertou na primeira vez que vi essa cena. É claro que á algo como uma barganha com o destino: John vive, mas tem que abrir mão de ser O John Lennon, líder da banda mais incrível da história da humanidade. Ainda assim, eu quase quis que fosse o caso, só de olhar para ele ali, vivo e bem.

Toda e qualquer ficção é baseada na premissa “e se?”. E se dois filhos de famílias inimigas se apaixonassem? E se alguém sobrevivesse a um naufrágio e fosse parar em uma ilha deserta? E se um cientista obcecado tentasse criar vida artificial com partes de pessoas mortas? E se uma aranha radioativa picasse um adolescente e desse poderes de aranha a ele?
A morte oferece o maior dos “e se?”:
“E se ainda estivessem aqui?”
A ficção especulativa, ainda bem, oferece um material farto para experimentar sair deste labirinto. Especialmente no meu subgênero preferido: viagem no tempo.
Na adaptação para o cinema de 2002 do clássico de H.G. Wells A Máquina do Tempo — diferente do livro — o protagonista cria o veículo especificamente para salvar a vida da mulher amada. Algo semelhante, sem máquina, acontece em Efeito Borboleta. Em Questão de Tempo o protagonista viajante fica desconsolado com uma morte, altera o passado e percebe que aspectos e pessoas importantes da sua vida se perderam para sempre.
Mortes famosas também motivam incursões temporais. Em 11.22.63, minissérie baseada em um livro do Stephen King, a ideia é impedir a morte do Presidente Kennedy em 22 de novembro de 1963. É claro que, quando parece que se consegue, o presente se torna catastrófico. É a mesma premissa daquele que os fãs consideram o melhor episódio de Star Trek, Cidade à Beira da Eternidade, da série original de 1966. Sem querer, a tripulação da Nave Estelar Enterprise impede a morte de Edith Keeler, uma mulher bondosa, pacifista, que cuidava dos desabrigados nos anos 1930. Acontece que evitar sua morte faz com que a frota estelar (e a nave Enterprise, por tabela) deixe de existir. As ideias de paz de Edith Keeler reverberariam, fariam com que os EUA não entrassem na segunda guerra mundial, e ai de nós sem nossos heróis para proteger o mundo. Ao fim, com dor no coração, o capitão Kirk impede que impeçam o atropelamento dela.
Outro e se que a morte invariavelmente oferece é: e se há vida após a morte? Nós nascemos, vivemos, pensamos, fazemos escolhas, existimos, e de um momento para outro tudo simplesmente acaba. De um momento para o outro, nos tornamos tão vivos quanto um punhado de terra ou uma poça de água. É algo difícil de imaginar sobre si, não existir. Talvez seja mais fácil imaginar outras formas de continuar existindo.
Sabemos apenas que morreremos. Não saber o que vem depois provavelmente é a fagulha inicial da própria ficção. As religiões surgem justamente para dar um sentido a este fim, oferecem histórias que confortam. Nem que seja apenas o conforto de qualquer continuiadade, mesmo que fosse sua alma perambular pelo tártaro indefinidamente.
No famoso monólogo de Hamlet sobre ser ou não ser, ele questiona justamente o que é mais corajoso: enfrentar as pedradas e flechadas que a vida nos lança, ou dar fim à ela no escuro, sem saber o que vem depois?
Ser ou não ser, eis a questão: será mais nobre
Em nosso espírito sofrer pedras e setas
Com que a Fortuna, enfurecida, nos alveja,
Ou insurgir-nos contra um mar de provocações
E em luta pôr-lhes fim?
Morrer… dormir: não mais.
Não faltam histórias que imaginam a vida após a morte, especialmente se incluirmos na conta as oferecidas pelas religiões. Pessoalmente, tenho um fraco por visões mais contemporâneas que imaginam realidades semelhantes às da vida, cheias de burocracia. Os Fantasmas se Divertem, Morrendo e Aprendendo, Um Visto para o Céu e, mais recentemente, Eternidade são exemplos de mortes com estruturas sociais que replicam as nossas. Acho que me divirto com este tipo exatamente pelo absurdo: é como se os autores não estivessem realmente interessados em descobrir o que há após a morte. É mais sobre fantasia do que sobre religião, sobre o absurdo da ideia. Porque, ainda que ninguém saiba como será, seria muita sacanagem que ainda existisse burocracia, uma das maiores máculas da vida.
Death and Taxes é uma expressão da lingua inglesa usada para se referir ao inevitável. Aparentemente é uma citação de Benjamin Franklin: morte e impostos seriam as únicas certezas da vida: qualquer um de nós certamente morrerá e, enquanto estivermos vivos, pagaremos taxas por isso.

Aprendi sobre esta expressão com o filme Mais Estranho que a Ficção. Acho que eu devo ter sugerido, em um ou outro momento aqui, como eu gosto de ficção, e esta dramédia é um dos filmes da minha vida. Harold Crick é um auditor da receita que, de repente, começa a ouvir sua vida sendo narrada, dentro da sua cabeça, por uma voz “em um inglês melhor” que o seu. A trama fica ainda mais interessante quando ele descobre que a voz tem dona, uma autora de renome, que está realmente escrevendo um livro sobre um personagem que ela julga fictício, um auditor da receita chamado Harold Crick. Este homem, interpretado pelo Will Ferrell tem urgência de encontrar a autora (Emma Thompson) porque a narração dizia que, “mal sabia ele, sua morte era iminente”.
Bom, se usarmos escalas de tempo mais amplas, como as das rochas, a morte de todos nós é, certamente, iminente. Fora a possibilidade real de morrer a qualquer momento, por qualquer razão que seja. Este é um fato com o qual todos precisamos nos deparar: para morrer, basta estar vivo. Ainda assim, o mais normal é não pensar muito sobre isso no nosso cotidiano, ou seja, na maior parte do tempo.
Em Mais Estranho que a Ficção, Harold Crick passa por esta jornada de enfrentamento com a realidade: a morte, além de iminente, é inevitável. E, aceitando a realidade da inevitabilidade é que ele, de fato, começa a viver.
Em muitas ficções, é justamente quando se abraça a certeza da morte, que ela se mostra incerta, que ela não acontece. Em oposição, é muito comum que personagens que confrontem esta inevitabilidade se dêem mal. E normalmente são vilões.
É o caso do Lord Voldemort, o terrível feiticeiro do mundo bruxo na saga do Harry Potter.
Eu sei. Hoje em dia falar de Harry Potter é complexo. Nos últimos anos a autora se revelou transfóbica e foi sofisticando sua face intolerante, juntando-se ao que existe de pior do lodo negacionista que as redes conectaram. Para falar sobre o bruxinho, tornou-se imprescindível abraçar o conceito de morte do autor. A ideia de que deve-se separar o autor da obra não é um consenso, e entendo o ranço e o boicote. Mas, pessoalmente, eu separo e o faço com convicção (ainda vou escrever um texto sobre isso).
No que concerne ao tema em questão, considero que a saga de Harry Potter seja precisamente sobre perda, morte e vida. Foram contos essenciais para a formação da minha identidade porque condicionou a forma como eu ainda enxergo estes temas. E a maneira como enxergamos temas tão essenciais como estes, diz muito — talvez tudo — sobre nós.
Vou tentar ser objetivo. Na história, existem dois grandes feiticeiros formados, maduros, adultos: Lord Voldemort, um bruxo das trevas, e Alvo Dumbledore, diretor da escola de magia. O primeiro considera que não devem existir limites éticos para praticar feitiçaria, e está determinado a se tornar imortal — ultrapassando o maior de todos os limites. O segundo obviamente não concorda, e defende que a maior de todas as magias é o amor. Antagonistas naturais.
Sim, o Harry Potter é o herói da história mas, como muitos heróis, é acidental. Antes mesmo dele nascer já havia um embate entre estas duas formar de enxergar magia. E este embate era essencialmente sobre o papel da morte na existência. Uma visão acredita que deve-se reunir poder para enfrentá-la e vencê-la. A outra entende que ela faz parte da jornada e não deve ser vencida.
Na história, o vilão consegue reunir poder o suficiente para tornar sua morte praticamente impossível. Para este feito, mata. Deixa corpos e mais corpos pelo caminho, seu próprio corpo é desfigurado e sua alma — literalmente — fracionada. Ele consegue se convencer que venceu a morte, mas no processo aniquila qualquer possibilidade de conexão com outro ser humano, qualquer possibilidade de amor.
Do lado do herói, muitas são as baixas. As primeiras, seus próprios pais, que dão a própria vida para salvá-lo ainda bebê. Este é um padrão que se repete livro após livro: pessoas que amam o Harry e se sacrificam para que ele continue vivo. Ao final, o próprio herói precisa encarar a morte de frente, e aceitá-la.
Bom, é um final feliz. No fim, de um jeito bastante literal, o amor vence. Harry ganha porque cativa pessoas ao seu redor, porque muitos escolhem lutar ao seu lado e sim, porque tantos se sacrificam para que ele consiga. Enquanto lemos os livros, vivemos diversos lutos, vendo personagens queridos morrendo. E de alguma forma, todos eles estão lá no fim, dando força ao herói.
E o que eu aprendi com Harry Potter, a lição mais valiosa, é que quando amamos alguém, quando amamos alguém de verdade, conseguimos, juntos, superar a morte.
Sim, ela é inevitável. Sim, precisamos aceitá-la. Mas o amor que temos por quem partiu mantém aquela pessoa viva em nós. Eu sei que soa piegas, mas é literal. Mesmo. Tenho uma anedota pessoal para ilustrar.
Há poucos anos perdi uma tia muito querida. Ela me viu crescer e desde criança ficávamos horas batendo papo, conversando sobre questões profundas. Eu sempre podia procurá-la com minhas inquietações e ela sempre me ajudou a encarar a vida de frente. Mais ou menos um ano depois que ela morreu eu estava passando por alguma dificuldade, angustiado, e sonhei com ela. Eu não lembro como era o sonho, mas lembro que essencialmente ela falava para mim:
“Há de se perseverar.”
Ela deve ter dito algo assim, muitas vezes, enquanto estava viva. Mas não literalmente, não com essas palavras. E hoje, quando eu penso nesta tia, lembro bem dela olhando para mim e falando exatamente isso. E, até onde eu sei, isso só aconteceu no meu sonho.
Interpretações místicas à parte, acho que dá pra afirmar com certeza que meu inconsciente a conhecia bem, de um jeito que só com amor é possível. E conhecendo-a tão bem, é fácil imaginar o que ela diria em cada situação. Assim, é quase literal a ideia de que minha tia continua viva em mim.
As marcas que os mortos que amamos deixaram criam seus próprios caminhos. As possibilidades continuam existindo. Eu sempre vou poder estar com que eu amei e se foram, eles seguem vivos em mim.
Quando há amor, as possibilidades não morrem.
Eu ainda ouço minha tia, ainda sinto o consolo da minha gata e ainda converso com a minha avó.








